AMANHÃ publica um resumo especial do relatório brasileiro do Carbon Disclosure Project, iniciativa internacional que estimula as empresas a divulgar dados sobre a emissão de gases de efeito estufa
Não é pequena a gama de controvérsias que ronda o tema do aquecimento global. Para alguns, o aumento das temperaturas é uma lenda: uma história delirante, carente de solidez científica e alimentada pelo sensacionalismo da imprensa e de Hollywood. Para outros, é um sinal preliminar do apocalipse e uma consequência da total indiferença com que os governos e as empresas vêm tratando a vida no planeta. Entre os dois opostos, ainda é possível encontrar teorias dos mais diversos vieses. Uma delas, por exemplo, prega que o aquecimento global seria parte de um discurso perverso dos países ricos para retardar o desenvolvimento das regiões mais pobres do planeta - que teriam, assim, de abrir mão do crescimento econômico em nome da preservação de seu patrimônio ambiental.
Há, no entanto, um grupo disposto a difundir uma visão mais pragmática sobre as mudanças climáticas. Formado por mais de 350 fundos de pensão e de investimento de todas as partes do mundo, inclusive do Brasil, o grupo detém ativos de mais de US$ 57 trilhões (sim, trilhões) e faz questão de aplicar o dinheiro em empresas ou empreendimentos que ajudem a conter as emissões dos gases causadores do efeito estufa. No olhar dessa elite financeira, a elevação dos termômetros é uma realidade que não pode mais ser ignorada. E cujas consequências, reais ou potenciais, precisam ser enfrentadas com ações consistentes e economicamente plausíveis. Trata-se, enfim, dos investidores que bancam o Carbon Disclosure Project (CDP), um movimento global que busca convencer as empresas a incorporar o conceito de "governança climática" nas suas estratégias de negócios.
Para levar a cabo essa missão, os signatários do CDP pedem para que as empresas calculem o impacto ambiental de suas atividades e mapeiem as ameaças ou oportunidades derivadas das mudanças no clima. O trabalho se baseia em um questionário amplo e bastante rigoroso. Em alguns casos, o simples ato de respondê-lo é considerado um feito - já que força a companhia a refletir e prestar contas sobre suas emissões de carbono. Em uma entrevista recente a AMANHÃ, o representante do CDP no Brasil, Giovanni Barontini, explicou que o objetivo é estimular as empresas a tratar o clima como um fator capaz de alterar os rumos dos negócios. "Nosso desafio é mostrar que o aquecimento global tem tudo a ver com o desempenho econômico. Uma mudança inesperada no clima pode impactar o crescimento, a participação de mercado e até a continuidade dessas empresas", disse ele, na ocasião.
Pegada carbônica
Os resultados são animadores. Determinadas a entrar no radar dos investidores do CDP, as empresas têm feito o possível para responder ao questionário e mostrar que, sim, estão tomando medidas concretas para reduzir sua "pegada carbônica" - como os especialistas se referem ao tamanho do impacto ambiental de cada companhia. As perguntas cobrem quatro áreas básicas: a visão da administração sobre os riscos e oportunidades que a mudança climática representa para os negócios, a "contabilidade" das emissões de gases causadores do efeito estufa, as estratégias adotadas para reduzi-las ou neutralizá-las e, finalmente, as oportunidades que as empresas vislumbram no novo paradigma do "baixo carbono". As respostas, que podem ser lidas nos relatórios anuais do CDP, deixam claro que há cada vez mais corporações assumindo a responsabilidade de reduzir as emissões de carbono. E o que é melhor: muitas delas são brasileiras.
O Brasil participa do CDP há apenas quatro anos. Nesse pequeno período, porém, tornou-se um dos destaques globais do projeto. Em 2008, por exemplo, 75 grandes companhias brasileiras receberam o questionário. Destas, 60 responderam. Parece pouco, mas não é: o percentual de adesão, de 83%, foi o segundo mais alto entre todos os países participantes. Ficou atrás apenas do índice registrado no Reino Unido (80%), onde o CDP surgiu há sete anos. "Entre os países que integram o Bric, o Brasil tem uma liderança muito nítida em índice de participação. Nenhuma companhia russa respondeu ao pedido de disclosure. Já entre as empresas indianas e chinesas, os percentuais de resposta foram relativamente baixos, de 14% e 15%, respectivamente", enfatiza o texto do último relatório do CDP. Cabe lembrar que, no âmbito do Protocolo de Kyoto, o Brasil não tem nenhuma obrigação formal de reduzir suas emissões de carbono. Ou seja: a "liderança" do país ocorre por iniciativa espontânea das empresas participantes.
Para quem pode
O sul tem participação importante nesse resultado. Pelo menos 15 das 60 companhias brasileiras que responderam ao CDP têm matriz ou operações importantes na região. Algumas delas se destacam na edição 2009 do ranking GRANDES & LÍDERES, feito por AMANHÃ em parceria com a PwC, como é o caso de Gerdau, Klabin, Vivo, Perdigão, Sadia e Copel, entre outras. As informações que elas fornecem dão uma dimensão da importância que as mudanças climáticas estão adquirindo na pauta econômica do sul. A América Latina Logística (ALL), por exemplo, calcula que despejou cerca de 1 milhão de toneladas de carbono na atmosfera em 2008 só com o combustível usado para mover locomotivas e caminhões. Já a Copel criou um grupo de trabalho só para avaliar as ameaças e oportunidades associadas ao aquecimento global.
O caso mais ilustre é o das Centrais Elétricas de Santa Catarina, a Celesc. Responsável pela distribuição de energia no mercado catarinense, a empresa não se contenta apenas em mapear a sua pegada carbônica. Ela também controla as emissões de toda a sua cadeia de suprimentos a partir dos preceitos de um trabalho complementar do CDP, conhecido como CDP Supply Chain. Hoje, quem quer ter o privilégio de se tornar fornec
edor da Celesc precisa ter políticas claras de contenção ou redução de gases causadores do efeito estufa. Trata-se de uma iniciativa exemplar. Além da Celesc, apenas duas companhias - Vale e Bradesco - realizam esse tipo de trabalho fora do eixo dos países desenvolvidos. E que ninguém pense que o objetivo é fazer marketing ambiental. Na nova economia do carbono, ter esse cuidado é apenas um meio de se buscar uma competitividade de longo prazo. Ou, como se convencionou dizer, sustentabilidade.